Cada uma daquelas contas miúdas foi enfiada uma a uma, na ordem certa, na cor certa, no ritmo que só a mão que aprendeu desde criança consegue manter. Um colar pode levar dias. Uma peça maior, semanas. E quando termina, não termina: começa a contar uma história que vem de muito longe.

A miçanga atravessou oceanos pra chegar aqui há mais de quinhentos anos. E quando chegou, encontrou povos que já dominavam a arte de adornar o corpo com sementes, fibras, penas, pigmentos. Povos que olharam pra aquela conta de vidro vinda de fora e fizeram o que sempre fizeram com tudo que chega: transformaram em linguagem própria.

Hoje, cada povo tem seu jeito. Geometrias que são quase escrita. Combinações de cores que conversam com a mata, com o rio, com o céu da região. Desenhos de bichos, de peixes, de plantas. Peças cerimoniais que marcam ritos de passagem. Cada combinação é um código. Cada cor tem nome, lugar, motivo.

Os colares, pulseiras, brincos e adornos da coleção Mundo Faz de Conta vêm dessas mãos. Foram escolhidos por Anselmo, peça por peça, em encontros construídos ao longo de anos com cada comunidade. O preço é o que o artesão pediu. O nome do povo está em cada ficha. A técnica é a que vem sendo passada de mãe pra filha, de avô pra neto, há gerações que ninguém mais consegue contar.

Quando você olha pra uma peça dessas e acha que é magia, você não está totalmente errada. Só que a magia tem nome, tem povo, tem mão.