Indígena pode usar miçanga em sua arte?

Indígena pode usar miçanga em sua arte?

 

Indígena pode usar miçanga? Não é plástico? Não polui? Não descaracteriza a cultura? Sim, pode. Não, não é. E a história é muito mais bonita do que você imagina.

A miçanga é um dos materiais mais usados pelos povos indígenas brasileiros, presente em colares, pulseiras, brincos e adornos rituais de dezenas de etnias. Mas com a popularização do tema, vieram também os preconceitos: "Miçanga não é coisa indígena, é estrangeira." "Miçanga é plástico, polui." "Não é autêntica."

Este artigo desfaz cada uma dessas afirmações com história, antropologia e dados. Porque a verdade sobre a miçanga é uma das mais bonitas histórias de ressignificação cultural já vividas pela humanidade.

A origem da miçanga: uma viagem de 4.000 anos

Antes de falar sobre a miçanga indígena no Brasil, é preciso voltar muito atrás. A miçanga não nasceu na Europa, nem foi inventada pelos colonizadores. Ela é mais antiga do que quase qualquer objeto que ainda usamos hoje.

Egito, Mesopotâmia e os faraós

Os primeiros registros de miçanga datam de 2.400 antes de Cristo, no Egito e na Mesopotâmia. A primeira fábrica de contas de vidro de que se tem notícia foi montada pelos faraós egípcios por volta de 1.350 a.C. Naquela época, miçanga era símbolo de status e poder.

O próprio nome "miçanga" não vem do português ou de qualquer língua europeia. Ele vem do africano masanga, palavra do idioma xhosa que significa "contas miúdas de vidro".

A expansão romana

Foram os romanos que espalharam essas continhas pelo mundo. Por onde passavam, deixavam miçangas como moeda de troca. Arqueólogos já encontraram miçangas do período romano na Escandinávia, na China, na Coreia, no Irã, na Síria, no Mali e na Etiópia.

Em outras palavras: a miçanga já era um objeto global muito antes de qualquer europeu pisar em terras americanas.

A chegada às Américas

Quando Cristóvão Colombo aportou nas Américas, em 1492, trouxe sacos e mais sacos de miçangas nos porões dos navios. Era a moeda de pacificação dos navegadores. Carga obrigatória nas viagens coloniais. Entre os anos 1400 e 1500, a Europa abrigava uma produção em massa de miçangas voltada exclusivamente para a exportação às colônias.

"A miçanga é um dos objetos mais antigos da humanidade. Atravessou impérios. Cruzou oceanos. Chegou aqui."

A miçanga indígena: o gesto que mudou tudo

Aqui está o coração da história. O ponto que muita gente desconhece e que muda a percepção sobre o que é uma peça indígena de miçanga.

O erro histórico de Colombo

No diário de bordo, Colombo escreveu que os povos originários das Américas eram "bestas e otários" porque trocavam ouro por contas de vidro. Para ele, era prova de inferioridade dos nativos. Para a história, é uma das maiores demonstrações de incompreensão cultural já registradas.

Séculos depois, o filósofo búlgaro Tzvetan Todorov, em seu livro "La Conquête de L'Amérique", respondeu:

"Besta e otário era Colombo, que não compreendeu que os valores são convencionais. O ouro em si não é mais precioso do que o vidro em si. O valor do ouro no sistema mercantilista europeu não pode ser universalizado." — Tzvetan Todorov

Para quem estava aqui, vidro colorido era pérola. Era moeda de troca preciosa. Era matéria-prima para algo muito maior do que adorno.

A "língua de vidro" segundo Els Lagrou

A antropóloga Els Lagrou, professora da UFRJ e curadora da exposição "No Caminho da Miçanga: um mundo que se faz de contas", inaugurada no Museu do Índio em 2015, dedicou anos ao estudo da miçanga entre os povos ameríndios. Suas pesquisas mostram que os indígenas brasileiros não simplesmente adotaram a miçanga: eles a transformaram em uma linguagem própria.

"A miçanga funciona como se fosse uma língua. Uma língua de vidro que registra e faz circular conhecimentos, tece caminhos pelo mundo e conta histórias de fascínio mútuo entre povos distintos." — Els Lagrou

Para os povos ameríndios, segundo Lagrou, a miçanga deixa de ser objeto industrial e vira ancestralidade. Cada grafismo é uma palavra. Cada combinação de cores é uma frase. Cada peça é um livro de cosmologia tecido fio a fio. Os Kalapalo, Kanela, Kayabi e dezenas de outros povos têm vocabulários inteiros codificados em miçanga.

Por que a miçanga é autenticamente indígena

Madeira de árvore caída, semente da floresta e miçanga de vidro têm o mesmo peso quando a mão que tece é indígena. O que define a autenticidade de uma peça não é a matéria-prima de origem, mas o gesto, a técnica, a memória e o povo que a produz.

"O que faz uma peça ser indígena não é a matéria. É o gesto."

Miçanga é plástico? Polui o meio ambiente?

Outra objeção comum, e que se desfaz com dois fatos simples.

Miçanga de vidro não é plástico

Existem miçangas de plástico no mercado, geralmente usadas em produtos descartáveis. Mas as peças autênticas produzidas pelos povos indígenas, incluindo todas as peças da Maniò, usam miçanga de vidro Jablonex, uma das mais antigas e tradicionais do mundo, produzida na República Tcheca.

Vidro é areia derretida. Não vira microplástico, não polui rios, não compromete fauna marinha. Uma peça de miçanga de vidro pode atravessar gerações. É um material que dura. E mais: é o mesmo padrão de miçanga que os povos vêm tecendo há séculos, com técnicas transmitidas de geração em geração.

Os povos indígenas e a proteção da floresta

Sobre meio ambiente, a verdade é o oposto do que muita gente imagina. Os povos indígenas brasileiros não são uma ameaça à floresta. Eles são, ao lado das populações tradicionais, a única razão pela qual a Amazônia ainda está de pé. Os dados são contundentes:

Os números

A floresta nas mãos certas

13,8%

do território brasileiro são Terras Indígenas


1,2%

foi o que essas terras perderam de floresta em 40 anos

(enquanto a Amazônia perdeu 20% no mesmo período)


20%

do desmatamento futuro pode ser evitado se as demarcações forem ampliadas


+300

estudos científicos confirmaram à ONU que territórios indígenas são os ecossistemas mais bem preservados das florestas tropicais

Fontes: MapBiomas 2023 · FAO/ONU · APIB + IPAM + CIMC

Em 2021, a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) publicou um relatório histórico, baseado em mais de 300 estudos científicos, declarando que os povos indígenas e tribais são os melhores guardiões das florestas da América Latina. O documento "Governança florestal por povos indígenas e tribais" mostrou que as taxas de desmatamento são significativamente menores em territórios sob proteção indígena, mesmo em meio às pressões do agronegócio, da mineração ilegal e do garimpo.

Quando você compra uma peça da Maniò, você não está poluindo. Está financiando quem protege a maior floresta tropical do planeta. Quem cuida da terra há mais de 10.000 anos, enquanto o resto do mundo ainda discute o que fazer.

Indígena pode usar miçanga? Sempre pôde.

Voltando à pergunta inicial, agora com outra força.

A miçanga não é estrangeira ao corpo indígena. Ela é parte de uma das maiores ressignificações culturais já documentadas. Os povos originários do Brasil pegaram um material que chegou de fora, fruto do comércio global iniciado pelos romanos e intensificado pela colonização, e fizeram dele algo absolutamente novo. Uma linguagem. Uma cosmologia tecida. Uma forma de manter viva a memória ancestral mesmo quando tudo conspirou contra.

E enquanto teciam vidro virando arte, esses povos mantiveram a floresta inteira de pé. Continuam mantendo. Em silêncio. Sem aplausos. Sem reconhecimento à altura.

A pergunta certa, talvez, seja outra:

"Você está pronta para usar uma peça que carrega tudo isso?"

Cada peça é um ato de resistência

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Fontes e referências

Sobre a história da miçanga:
Lagrou, Els. "No Caminho da Miçanga: arte e alteridade entre os ameríndios". Revista Enfoques, PPGSA-UFRJ, v.12(1), junho 2013.
Lagrou, Els. "No Caminho da Miçanga: um mundo que se faz de contas". Catálogo da exposição. Museu do Índio, 2015.
Dubin, Lois Sherr. The History of Beads from 30.000 B.C. to the Present. New York: Abrams, 1987.
Todorov, Tzvetan. La Conquête de L'Amérique: la question de l'autre.

Sobre os povos indígenas e a proteção da floresta:
MapBiomas. "Coleção 8.0", 2023. Disponível em mapbiomas.org.br
FAO/ONU. "Governança florestal por povos indígenas e tribais", 2021.
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e Comitê Indígena de Mudanças Climáticas (CIMC). Estudo conjunto sobre demarcação e desmatamento.
Instituto Socioambiental (ISA). "Terras Indígenas no Brasil". Disponível em terrasindigenas.org.br

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